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Como simples cálculos matemáticos podem ser cruciais para tomar decisões estratégicas nesta batalha de impérios
Direitos autorais Regina Gonçalves
> Os tambores ecoam é chegada a hora de Caio descobrir a sua força. Além de ser obrigado a encarar uma batalha, terá que finalmente colocar a prova sua astúcia usando somente como arma as regras da proporção para poder sobreviver durante o confronto entre os grandes estrategistas, general Kutuzov e o indomável Napoleão Bonaparte.<<
TRECHO DO LIVRO
capítulo 1:
para o chão e viu que seus pés estavam afundando numa terra úmida embebida em sangue de uma multidão de soldados feridos ou mesmo sem vida. A relva estava coberta por baionetas, espadas e uma fumaça escura que exalava um forte cheiro de enxofre. As nuvens aglomeradas liberaram uma pequena chuva que, aos poucos, limpou a terra dos vestígios da grande tristeza. No meio daquela paisagem sem cor, homens, de dois exércitos distintos, procuravam resgatar seus mosquetes, seus canhões e seus feridos. Eles, por vezes, esbarravam-se, mas nem se importavam mais por se encontrarem diante do inimigo. Suas feições eram de guerreiros cansados demais para lutar ou sequer aceitar provocações. Seu comportamento lembrava lutadores de boxe que após exaustivos combates, após trocarem dezenas de golpes, são forçados a se abraçarem para se manterem de pé. Os últimos raios de sol já enfraquecidos deixavam a terra carente de brilho e de calor. Caio já estava agasalhado com uma casaca longa de um dos soldados fora de combate, quando um grupo de homens de barbas espessas com roupas simples e bonés arredondados, alguns carregando foices e outros bastões de pastor, vendo o garoto agachado e tremendo o acudiram. Guiaram-no para o alto de uma colina, onde havia uma carreta cheia de feridos. Caio tratou de trocar o seu boné, que ficou guardado no fino bermudão, por um bom gorro de pele que cobriu suas orelhas congeladas. Curioso, aproveitou para dar uma última olhada para tentar descobrir onde estava, mas não adiantou. O campo de batalha era longe de qualquer lugar habitável. Não havia nenhuma construção por ali. Tudo que havia era uma grande massa de homens e cavalos tentando organizar a todo custo fileiras sem fim. Por todo o horizonte enegrecido, ainda podia-se ver pequenos focos de incêndio e, de muito longe, escutava-se o barulho abafado de canhões, gritos dando ordens de avançar e, até mesmo, de uma esgotada corneta. Enfraquecido, o rapaz foi levado para junto dos feridos. Subiu na carreta e seguiu em retirada, acompanhando os milhares de soldados numa caravana formada por diversos regimentos. Os homens com os rostos cobertos por uma fuligem acinzentada, espremidos na carreta, nem se importaram com a presença do garoto estranho. Sentado na frente de Caio estava um rapaz loiro, uniformizado, muito jovem, que, ao tossir, cuspia um pouco de sangue. Ele percebeu que no ombro do jovem soldado havia uma ferida aberta provocada, provavelmente, por uma bala. Um homem de pele e olhos claros ao lado de Caio, com um lenço amarrado na cabeça ensangüentada, arrastou-se até o loiro. Sem pensar duas vezes, rasgou sua camisa em trapos e com o pano comprimiu a ferida para estancar a hemorragia do colega. Caio, todo molhado, sentindo seus pés gelados, tentou cobrir-se com o casaco. Suas mãos também estavam ficando endurecidas. Passado um tempo naquela estrada, Caio achou uma plaqueta de madeira escrita com o nome estranho "Borodino". Enfrentando os solavancos da frágil carroça, o regimento pernoitou perto de uma aldeia, onde havia uma igreja branca, na qual os padres ofereceram ajuda aos desamparados. Tanto os religiosos, como os camponeses, serviram um pouco de uma espécie de sopa feita de sobras de carne e legumes em volta das fogueiras. Caio comeu o prato que lembrava o estrogonofe da sua mãe, com uma colher de pão improvisada que depois foi devorada até o último pedaço. Deitado no chão frio, ele tentou se acomodar se aquecendo entre o amontoado de feno e de feridos, mas apesar de cansado pela dura viagem, não conseguiu pregar os olhos a noite inteira. Seu corpo tremia, mesmo estando tão perto da fogueira. Sua cabeça estava pesada, seus olhos lacrimejavam e sua garganta doía demais. As fortes dores no seu corpo, ardendo em febre e coberto pelo suor frio, faziam-no sentir como se estivesse deitado em cima de centenas de alfinetes. Ele bem que tentou dizer algo, mas sua voz não saía. Com os primeiros raios de sol, o regimento de cavalaria que cruzava o comboio de carroças continuou sua interminável viagem. Às vezes, passava diante deles um grupo formado por milhares de soldados, marchando em direção ao campo de batalha deixado para trás. Eles reverenciavam os colegas abatidos com largos sorrisos sem perceberem que estavam diante do seu futuro. Depois disso, Caio e seu grupo atravessaram uma ponte que desembocou numa floresta de tom amarelo, onde um pequeno convento com uma cruz no alto da torre brilhava sob a luz forte do sol e mais uma massa de camponeses vinha ao seu encontro. Perto, havia uma pequena placa de madeira fincada no solo, na qual Caio já lia com muita dificuldade o nome de Kolotzki. Bem mais adiante, durante o trajeto, avistou outros nomes estranhos como: Kolotcha, Moscova, Bezubovo e Zakharino. Por se encontrar tão enfraquecido, ele já tinha perdido a noção das horas e dos dias. Via apenas campos de trigo, planícies, granjas, rios, mais fogueiras, o sobe e desce dos morros e mais tropas cruzando seu caminho. Por mais que tentasse, não conseguia ainda deduzir que locais eram aqueles. A cada minuto, a dificuldade de se manter consciente se tornava mais sofrida. Finalmente, a tropa alcançou uma grande cidade. Esta, com enormes construções, casas, lojas, tabernas, estábulos... Ao passarem pelas ruas, Caio ficou intrigado. Sua visão já bem afetada fazia-o acreditar que estava diante de milhares de homens, mulheres e crianças sem rostos que andavam apressadas carregando imensos sacos, móveis de madeira e caixotes contendo porcelanas acomodadas no monte de feno, cristais, que cintilavam à luz do sol, e imensos quadros com pesadas molduras douradas. As carroças com os soldados passavam com dificuldade pelas ruas obstruídas por outras carroças estacionadas, entupidas de armamentos como canhões que estavam sendo desmontados e arrastados para serem levados na mudança. As pessoas mais humildes, que carregavam apenas um saco com seus pertences, pediam carona aos criados que se amontoavam junto aos móveis dos patrões. Cavalheiros, usando calças curtas e justas, casacas com golas altas, e costeletas ao longo dos cabelos curtos, e damas com vestidos armados arrastando pelo chão, cuidavam dos últimos detalhes para, depois, seguirem a evacuação da cidade em luxuosas e espaçosas carruagens. - Trezentos! Quatrocentos rublos! Agora custa quinhentos!- gritava um homem no meio da rua, ofertando uma das poucas e preciosas carretas ainda vazia. - Cento e cinqüenta! Cinqüenta rublos! – gritava alucinado um outro homem vendendo móveis, roupas finas e até jóias. No meio dessas visões duplas, a febril multidão vagava à procura de alguém que a conduzisse e recobrasse a ordem daquela loucura. Uns poucos nobres, sensíveis à dor, retiravam seus pertences das suas carroças para acomodar os soldados feridos em padiolas tombadas nas calçadas. Caio, zonzo com aquele surto de gritos, saiu cambaleando da carroça. Ao tentar atravessar a rua, no meio daquele alvoroço, sentiu empurrões que o fizeram cair na rua congestionada. Foi nesse momento que o garoto, atordoado, viu contra a luz do sol um vulto negro de um imenso cavalo com as duas patas levantadas sobre sua cabeça. Assustado, tentou se proteger com os braços. Enquanto isso, um jovem baixo, moreno e com cabelos cacheados curtos se colocou entre o indefeso e o cavalo, fazendo de tudo para segurar as rédeas do animal descontrolado. Com a ajuda de outros, o cavalo voltando a si foi levado para longe dali. O moreno ofegante se aproximou do adoentado ainda deitado no chão. - Essa foi por pouco. Você está bem? - Caio, confuso, não respondeu ao salvador. O jovem, ajeitando seu pequeno óculos, continuou. – Venha! Vamos sair da rua. Você consegue andar? Caio, apoiado no moreno, foi aos poucos caminhando em direção a uma senhora de cabelos ruivos. De súbito, ele arregalou os olhos e muito emocionado a abraçou. A mulher, quase caindo com o peso do garoto, o segurou. Ele sorriu para ela e com uma voz rouca gritou: - MMMMAAAAÃeeee! – a mulher, espantada, quase o largou. Caio, com olhar carente. prosseguiu. – Que bom que está aqui, mãe. – já sem forças deu um beijo na senhora, antes de escorregar no seu colo e perder de vez a consciência.
Uma enorme pirâmide de base quadrada no meio da rua, cercada por centenas de operários egípcios, atrapalhava o trânsito. Caio, usando uma armadura de bronze, voava montado em seu cavalo negro sobre os carros e carruagens no engarrafamento irracional. De repente, detrás das nuvens esverdeadas, provavelmente vindo da quarta dimensão, surgiu ENIGMAT, agora tomando a forma de um feroz dragão de tamanho desproporcional ao herói radical. Caio pegou sua caneta prateada e começou a expressar fórmulas matemáticas aterrorizantes para o expressivo animal que, temendo a probabilidade de uma derrota, fugiu para o infinito em busca de um poder elevado à grande potência. O determinado rapaz decidiu interceptar o inimigo, traçando uma tangente sem escapatória. Ao se aproximar, o garoto, antes de aplicar o desafio fatal, percebeu que sua vitória diante de um animal pertencente a um conjunto unitário seria equivalente a uma fração ordinária ao respeito que se deve aos animais subtraídos do conjunto universo. O que fazer, então, com o dragão raivoso, pensou Caio. Isso era uma verdadeira incógnita. Todavia, eis que das profundezas de um lago dourado, círculos concêntricos foram se projetando e um castelo de formas geométricas convexas evoluiu ao quadrado da velocidade da luz. Do seu interior, saiu uma unidade de cavaleiros, trajando jalecos brancos, montados em suas pranchetas voadoras, rompendo a lei da gravidade. Erguendo suas canetas vermelhas e protegendo-se atrás de enormes provas de matemática, os mestres, produtos do poder do raciocínio, logo formaram um círculo perfeito. Mantendo-se eqüidistantes uns dos outros com os dois opositores situados em pontos extremos da terça parte do raio dessa circunferência da paz, eles, numa única voz de grandeza absoluta, fizeram uma proposta sobre a questão: "Esse combate deve ser reduzido a um denominador comum. Que seja feita a união." Assim, Caio e o dragão realizaram uma análise combinatória dos seus atos e apagaram suas diferenças, obtendo uma felicidade integral, derivada da mais pura essência da sabedoria do universo, desvendada pelo líder dos mestres, o sábio Einstein, a prodigiosa teoria da relatividade.
No meio destas cenas de delírios, Caio via sempre um rosto angelical de uma mulher de cabelos castanhos presos, trazendo, ora uma sopa, a qual oferecia de colher para ele que mal conseguia levantar a cabeça, ora um lenço molhado que colocava na testa do acamado. Em outros momentos, Caio via a mulher que ele, equivocado, pensava ser sua mãe. Ela, sempre com muita paciência, obrigava o doente a parar de falar sobre histórias estranhas de viagens no tempo e a beber um remédio muito amargo. As imagens estranhas que fervilhavam na cabeça de Caio, aos poucos, foram desaparecendo. Em seu lugar, já podia visualizar um quarto iluminado por castiçais e completamente vazio. Ele se esforçou para tentar alcançar um jarro de água ao seu lado, perto da cama feita de um monte de feno, onde se encontrava, coberto por um pesado casaco de pele. Quase derrubando o copo, bebeu em grandes goles e depois jogou o resto na sua cabeça. Após um tempo, sentindo-se melhor, vestiu o casaco e decidiu sair dali. Procurou por seus tênis e os achou perto da lareira acesa. Ao andar pelos corredores da suntuosa casa, estranhou ao verificar que havia poucos móveis e objetos. Pareciam ser de uma época muito antiga, mas não havia nada que pudesse dar-lhe uma idéia precisa de onde poderia estar. O lugar pouco iluminado exalava um forte mistério no ar. Caio, em passos curtos, ouvia apenas o ronco insistente do seu estômago vazio. Ele já se encontrava num salão do primeiro andar, quando vozes, vindas detrás de uma porta, o atraíram. Afoito ao se aproximar do local, acabou escorregando num tapete no chão liso e esbarrando na porta que se abriu bruscamente. BUUUUMMMMM!!! - O que foi isso! – exclamou um homem de rosto arredondado, cabelos e olhos pretos, trajando um uniforme carregado de medalhas, atrás de uma mesa e cercado por outros cavalheiros com trajes semelhantes. Caio, imóvel no chão, percebeu que após o susto os homens correram em sua direção, mas, ao invés do que esperava, ignoraram a presença dele e perseguiram um vulto coberto pela cortina de uma grande janela atrás da porta entreaberta. O fugitivo que ninguém conseguiu ver direito o rosto, tentando retardar o grupo, jogou sua pistola em cima dos oficiais e pulou da sacada.Um dos homens, armado, atirou em direção à imensa escuridão que cercava o pátio da casa. - Chamem as sentinelas!! - ordenou o líder que se manteve perto da mesa. – Vasculhem a área! Alguns dos presentes foram chamar os guardas em frente à casa, enquanto outros dois finalmente pegaram o Caio e o levaram diante do chefe que agora saíra de perto da mesa. Franzindo os olhos, o homem com umas entradas no cabelo escuro falou para o garoto num tom enérgico: - Seja quem for, rapaz, cumpriu o seu dever evitando minha morte.- o homem voltou para a mesa e se sentou com a postura de um rei, enquanto um dos oficiais que havia saído em perseguição retornava noticiando: - Sire, não há nenhum sinal do intruso. Não há ninguém nas redondezas. Nossos soldados disseram que não viram nenhum movimento pelos jardins da casa. - Pois deixem que vá, meu caro marechal. Mais cedo ou mais tarde meus súditos irão se convencer de que só estou aqui em minha Moscou para conquistar a paz e a felicidade de todos. Serei clemente a esses pequenos homens sem visão. - Vossa majestade, como sempre, é justo. - Sem justiça só há divisões, vítimas e opressores, meu caro Ney - o líder olhou fixamente para Caio que ainda estava sendo seguro pelos braços e continuou. - E mais vale ter um inimigo conhecido do que um amigo forçado, não acha, rapaz. Afinal, quem é você? - Sou Caio Zip! - O garoto nesse momento forçou para que o soltassem e num tom irônico completou. - E quem é vossa majestade?
Para Napoleão
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