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Koseritz é um dos personagens 

 

de "O TEMPO E O VENTO - o Continente"

 de Érico Veríssimo

 

Veja  trecho  AQUI

    

 

 

 

 

                   

 

 

   

     Dom Pedro II e o Jornalista Koseritz

 

>> Na vastidão do mar brasileiro vem acontecer o 

encontro de Caio Zip, o viajante do tempo,

 com o jornalista teuto-gaúcho 

Koseritz

Unidos, eles estão envolvidos numa grande missão: 

uma entrevista exclusiva com Dom Pedro II  <<

 

Escrito por Regina Gonçalves e Regis Lima de Almeida Rosa

 

 

Nesta parte desta ficção histórica, "Dom Pedro II e o jornalista Koseritz", temos uma ampla entrevista, em que os diálogos tornam-se bastante densos e são apoiados em uma intensa pesquisa baseada em fontes da época. Essa parte do livro visa elucidar questões fundamentais de nossa história, que nos fariam entender melhor o Brasil de hoje. A ideia é oferecer uma visão crítica na forma de debates entre os personagens principais. São questões relacionadas à imigração, cultura, educação, desenvolvimento, escravidão, guerras, dívidas internacionais, impostos, democracia e liberdade de imprensa.

               

 

 

 

 

Quem foi

          Carlos Koseritz ?

 

   

          

  Trecho da ENTREVISTA COM D. PEDRO II 

      

Koseritz: Majestade, o que pode ser feito para melhorar a educação no Brasil? Aqui amargamos a lamentável situação de que mais de quatro quintos da população ainda é analfabeta.

Caio Zip, o jovem viajante do tempo: Caramba! Tudo isto já nesta época! Como pode? Será que nunca vou ver o governo se esforçar em oferecer uma boa educação pública? Mas o que este governo fez ou fará? Pra que ele serve afinal?

Koseritz: Calma aí, rapaz! Todos sabem que o imperador se envolve pessoalmente quando se trata de educação.

D. Pedro: Deixa o rapaz, Koseritz. Talvez ele tenha razão. O fato é que não tive sucesso em convencer as pessoas a dar prioridade à educação, apesar do meu esforço, do meu exemplo. O problema é que não basta um punhado de pessoas com esse objetivo, é preciso o envolvimento de toda a estrutura legislativa e executiva do país, na capital e nas províncias, e a cooperação e cobrança constante da sociedade nesse sentido.

Koseritz: Mas, infelizmente isso não ocorre.

D. Pedro: Ao contrário, o que os políticos e outros setores influentes fazem é achar curioso o envolvimento do imperador nesse assunto. Eles não levam a sério as minhas ações em prol da educação e da ciência e, muitas vezes, esses políticos e os jornais fazem chacota das minhas ações. Enfim, apesar do meu empenho, não consegui convencer, mas talvez cada país tenha o seu ritmo e um dia chegará a vez do Brasil, um dia a sociedade brasileira estará suficientemente amadurecida para levar tudo isso a sério, mas espero que não tenhamos que esperar cem anos para acordarmos para esse assunto.

Koseritz: Majestade, o notável crescimento da Argentina desde o final da guerra do Paraguai pode ser atribuído também ao esforço na área da educação?

D. Pedro: Certamente, mas antes disso atribuo esse crescimento à união do país por meio de grandes homens que tiveram a oportunidade de serem presidentes democraticamente eleitos, e que foram notáveis estadistas, em vez dos caudilhos tão comuns na América Latina.

Koseritz: E tivemos nossa participação nessa união, pois lutamos junto com Mitre e Sarmiento, que depois foram presidentes da Argentina, contra o caudilho Rosas em 52.

D. Pedro: Saibam que a figura política que eu conheci pessoalmente e que mais me impressionou em matéria de educação foi Sarmiento. Ele visitou o Rio por três semanas na época que estava banido da Argentina de Rosas. Ah, que prazer foi conversar com esse homem! Todo dia conversávamos sobre vários assuntos e ele me explicava detalhadamente o seu tratado de educação, intitulado "De La Educación Popular". Para Sarmiento um país não tem futuro sem educação.

Caio: Mas este Sarmiento era responsável pela educação?

D. Pedro: Ele foi presidente da Argentina no período 68 a 74 e aplicou tudo o que dizia em seu livro, espalhando escolas pelo país, motivando os professores e, assim, alfabetizando de vez o seu povo e preparando as bases para uma nação desenvolvida no futuro.

Koseritz: De fato, a República Argentina está se tornando um país exemplar. O percentual de sua população frequentando a escola é cerca de quatro vezes o percentual do Brasil. Creio que dentro de mais uma ou duas gerações a Argentina estará entre os 10 países mais ricos do mundo. E o Uruguai vai no mesmo caminho.

Carolina Koseritz: É realmente lamentável a situação da educação no Brasil.

Koseritz: O problema capital do Brasil é a difusão da cultura pela instrução e educação literária.  Como Majestade compreendeu desde cedo, liberdade não vai de mãos dadas com a ignorância sem degenerar em anarquia. Para um povo analfabeto a formação política sobre a qual se apoia um governo parlamentar é como a roupa de um adulto no corpo de um menino de dez anos, que só serve para lhe confundir os movimentos.

D. Pedro: Mas, o senhor crê que temos feito algum esforço para solucionar esse grave problema?

Koseritz: O maior esforço vem de Majestade que se orienta, assim, para a melhoria da instrução e o alargamento da cultura geral. Por isso Majestade protege todas as sociedades e ligas pedagógicas e científicas, por isso promove a reunião de um congresso pedagógico unido a uma exposição da mesma natureza, por isso concede sempre e de bom grado decorações e títulos para premiar serviços relacionados com a instrução e por isso, finalmente, comparece pessoalmente a todos os concursos culturais e educacionais abertos. Sim, Majestade emprega o maior esforço, em dinheiro e tempo, no levantamento da instrução e ampliação da cultura geral. Tudo isso é muito digno do nosso reconhecimento.

D. Pedro: E o senhor teve a chance de assistir a exposição pedagógica?

 Koseritz: Eu já tive a oportunidade de ver a exposição pedagógica com as representações de vários países na outra vez que visitei o Rio. Sei que a última exposição teve grande sucesso, mas se terá resultados práticos é outra questão cuja solução ainda está em aberto.

D. Pedro: Como assim?

Koseritz: Para as escolas do governo e os respectivos professores não haverá nenhuma utilidade. Esses senhores e senhoras se apresentam ali com seus alunos, que atravessam a sala em fila dupla em passo de ganso de olhos baixos, sem parada e sem nada observar. Os professores também não veem nada sem interesse. Como o país tem 6 mil escolas públicas e uma coleção completa para a instrução não custa menos de 500$000 por escola, então seria necessária uma despesa de 3 mil contos por ano, visto que os objetos no decorrer do ano se estragam ou ficam fora de uso. Este é um encargo que o governo não pode assumir e assim as escolas públicas nada aproveitarão da exposição. Mais útil é ela para os colégios particulares e os seus diretores que podem estudar a forma de obter numerosos novos instrumentos de ensino.

 

O imperador ficou em silêncio, triste e pensativo até que finalmente quebrou o voto de silêncio.

 

D. Pedro: Koseritz, o senhor levantou um ponto que eu não tinha considerado.

Koseritz: Só estava a querer mostrar a minha visão, pois já tive a experiência de ser um educador. Por esta razão, posso afirmar que considero o Colégio Pedro II um estabelecimento modelar.

 

Finalmente veio à tona um sorriso no rosto do imperador.

D. Pedro: Os meus netos estudam lá!

Caio: Majestade, Koseritz tem razão. O colégio é ótimo e os professores de lá são muito bons.

D. Pedro: Mas como você sabe se não estuda lá? Você não veio de fora, rapaz?

Caio: Bom... é que... tenho alguns amigos que estudam lá e eles falam muito bem do colégio!

Koseritz: De fato o estabelecimento conta com professores notáveis como Tautphaus, Schiefler, Carl Jansen e Sílvio Romero, mas acho que a maior parte não se dedica como deveria.

D. Pedro: Agora, o senhor está sendo severo com o colégio modelar. É nas outras escolas que a situação é crítica. Há problemas, mas tudo vem da falta de recursos... é difícil conseguir professores dedicados com tão poucos recursos. Nosso país é pobre e os recursos são poucos, mas o pior é que há uma briga enorme entre as diversas correntes no parlamento na hora de definir o orçamento da nação. Na partilha dos recursos, a educação acaba sendo prejudicada.

Koseritz: Este assunto me interessa muito. Como disse, fui um educador, um professor primário nos meus primeiros anos de Brasil e até abri uma escola. Por isso, guardei um manifesto, de 1871, feito por professores públicos primários daqui da corte, que chamavam a atenção para as difíceis condições de trabalho.

D. Pedro: Conheço este manifesto. Tenho aqui uma cópia...

 

O imperador remexeu as gavetas de uma cômoda no canto da sala.

 

D. Pedro: Achei. É este aqui, não? Ouçam o que diz:

"Em uma época de patriotismo e de reformas, quando parece despontar nos horizontes da pátria uma nova era de prosperidade, uma classe inteira de servidores públicos, classe talvez a mais importante de servidores do estado, vive oprimida, ludibriada e escarnecida, e, o que mais é, humilhada pela injustiça com que os poderes do estado a apelidam constantemente de ignorante".

Koseritz: Esse mesmo. Se não me falha a memória, mais à frente, eles argumentam que a ignorância no Brasil não é uma característica da sua classe, mas "uma espécie de epidemia, que não respeita muitas vezes as mais elevadas posições".

Caio: Puxa, como esse problema é antigo no Brasil.

D. Pedro: Antigo? Bom só faz 14 anos, mas para um jovem receio que isto já seja realmente antigo. Bem, Koseritz, eles se sentiam desprezados com os baixos salários, que os condenavam à miséria. A Inspetoria Geral de Instrução Primária e Secundária queria demitir os signatários, mas eu não deixei, pois defendo o direito de livre manifestação, ainda que as críticas atinjam o meu reinado.

Koseritz: E os professores continuam sendo pouco valorizados pela sociedade. É inconcebível que a remuneração de um professor primário seja uma das mais baixas entre os funcionários públicos. Deveria ser um privilégio ser professor primário, no meu entender a profissão mais nobre dentre todas. Creio que eles deveriam ter uma remuneração pelo menos na média das demais categorias de funcionários, mas na dura realidade é uma das menores.

D. Pedro: Sim... Com a responsabilidade de formar as cabeças das futuras gerações, eles deveriam ter os melhores salários.

Koseritz; Eu sei que o imperador faz o possível. Mantém na Quinta da Boa Vista a sua própria custa uma escola particular dirigida por três professores e frequentada por 200 alunos e alunas pobres. Soube que possui todo o material moderno e uma biblioteca própria, além de curso noturno para os adultos da colônia de famílias para a qual Majestade forneceu terra e teto. Sei que o imperador vive nas condições mais modestas, como nenhum presidente de pequena República seria capaz de aceitar, e sei que dos 800 contos da sua lista civil gasta mais de 700 com obras de caridade, dispêndios ligados à instrução pública e bolsas de estudo para apoiar novos talentos.

D. Pedro: Se eu gastasse com a monarquia a minha lista civil poderia viver com grande luxo. Ainda ontem, quando se discutia o orçamento que deve ser apresentado às câmaras, desejou-se, em face da necessidade de economias forçadas, diminuir a verba para a instrução. Prefiro cortar da minha verba e não ganhar nada do que cortar a verba para a instrução pública. Perdi o sono por incontáveis noites de tanto que me afligi com essa e outras questões políticas. Por mais que eu governe, todo o esforço parece fadado ao esquecimento.

Koseritz: Isso me faz lembrar da minha visita à Biblioteca Nacional há dois anos.

D. Pedro: Como assim?

Koseritz: Quando a família real fugiu para o Brasil escapando de Napoleão trouxe consigo o que os arquivos e bibliotecas de Portugal possuíam de mais raro. Quando aqui chegou, deixou peças muito valiosas guardadas em caixas fechadas e se esqueceu delas até que Dom João voltou a Portugal e deixou Dom Pedro I em seu lugar. Finalmente as caixas foram abertas, mas como não havia gente especializada, jogaram as gravuras ali guardadas num canto como se fossem trapos durante 50 anos. Somente há poucos anos ocorreu ao antigo bibliotecário observar mais atentamente aqueles papéis e trabalhos expostos à poeira e umidade e fazer a grande descoberta. Milhares de gravuras e volumes de autoria de artistas portugueses, franceses e holandeses dos séculos 17 e 18. O doutor Brum, conhece?

D. Pedro: O doutor Brum, inteligente e culto chefe da seção. Conheço-o muito bem.

Koseritz: Pois então, ele me mostrou a preciosidade, está salvando a coleção do desaparecimento ao começar a restauração, mas ainda tem muitos anos pela frente. Já ia embora quando abri uma gaveta e descobri um novo tesouro. A primeira folha que vi foi um esboço de cabeça de mulher de uma beleza tão ideal que logo pensei nos quadros de Rafael. Vejam só! Não é que quando fui ver a assinatura da obra lá estava a assinatura de um dos maiores mestres italianos, Rafael Sanzio! E aí me perguntei: como isto está aqui perdido? E a resposta como sempre foi a mesma: A ignorância tratou de abandoná-la ao esquecimento, quase a sentenciando ao desaparecimento, mas felizmente alguém de alma culta que enxergou seu real valor cuidou de restaurá-la. O verdadeiro esforço pode levar algum tempo para se fazer reconhecido, Majestade, mas com certeza emergirá na forma de um grande tesouro.

D. Pedro: Eu passaria de bom grado o resto da minha vida na companhia dessas obras e volumes, sem jamais reclamar.

Koseritz: Então somos dois.

                                                              (...)

 

Veja OUTROS trechos do Livro Dom Pedro II e Koseritz: 

 

* Conversa animada com Chiquinha Gonzaga, Machado de Assis,Cruz e       

                                                                                        Souza    AQUI  

 

* De trem a Petrópolis, cidade imperial AQUI  

 

*   Os  Pensamentos de Koseritz sobre Economia Nacional   AQUI 

 

                                     

 

Ouça Heródoto Barbeiro entrevistando

Regis Lima De Almeida Rosa

 um dos autores do livro

D. Pedro II e o jornalista Koseritz

 

 

 

 

 

 

    

 

            

 

Quem foi

          Carlos Koseritz ?

 

                                    

  PARA PEDRO II   

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