O
vento incessante balançava a placa pendurada acima de um poste. Seu uivo coberto de lamentos atravessava as ruas vazias e escuras sem
intuir que era seguido pelos passos solitários de um jovem. Nesse cenário
sombrio, só restava ao viajante do tempo encolher as mãos nos bolsos
do bermudão... Não sem antes enfiar com toda força o boné para
esquentar as geladas orelhas. Sem saber para onde ir... Naquele lugar
estranho, Caio Zip ficou a vagar por sobre os trilhos da linha de
ferro que, por fim, o levou a uma estação mais à frente. O percurso
até lá era curto, mas o frio da madrugada e a pesada fome
desanimavam o rapaz.
Tempo
depois, chegando na estação iluminada por uma tênue luz elétrica,
o vazio se fez sentir. A estação lotada por um silêncio angustiante
deixava-o sem ação. De súbito, o melancólico momento foi quebrado
com a passagem de uma carruagem puxada por dois cavalos agitados que
trotavam por sobre os quebrados paralelepípedos. Caio suspirou
aliviado e até pensou em assoviar a fim de chamar a atenção do
cocheiro, mas sua indecisão fez com que perdesse a chance.
Aborrecido, voltou a vagar por aquela enorme estação. Caminhou por
entre os bancos de ferro até encontrar um lampião aceso,
provavelmente deixado por um sinaleiro. Pegou o precioso achado e
ficou a procurar indícios de onde se encontrava.
Logo
mais à frente, abaixo de um grande relógio de madeira esculpida,
encontrou um quadro negro onde constavam alguns itinerários para
cidades francesas. Lá também constava o nome Gare Du Nord – estação
do Norte - e a data de saída dos próximos embarques e
desembarques… Contudo o que mais chamou a atenção do jovem foi
saber que era o ano de 1905. Suas descobertas estavam deixando-o
empolgado até que um ruído o atraiu.
Caio
foi seguindo e seguindo o som estranho chegando a atravessar o outro
lado da linha. Lá, um trem de carga se encontrava parado. Logo o
garoto notou que os ruídos abafados vinham de um dos vagões vazios.
Guiado pela curiosidade, aproximou-se devagar e sem cerimônia enfiou
sua cabeça no interior do vagão juntamente com sua mão erguida
sustentando o lampião… O tempo congelou diante daquele momento. Os
olhos surpresos de Caio se fixaram no rosto contorcido de um homem
completamente pálido e com a língua assustadoramente caída.
Devagar, a boina velha e surrada daquela figura quase sem vida foi
escorregando revelando o cabelo curto e grisalho. Os olhos com um mórbido
fundo preto do quase morto voltaram-se para Caio. Pareciam estar
implorando por uma última salvação… Mas aos poucos aquele olhar
foi perdendo o brilho do desespero deixando no lugar um profundo
vazio. O corpo sem forças daquele homem ainda permanecia de pé,
enquanto os braços, que todo esse tempo permaneciam em volta do pescoço,
começavam a escorregar por sobre o casaco rasgado, expondo a presença
de um fio estrangulando o pobre homem... Uma sensação forte de enjôo
quase derrubou o jovem. O lampião chegou a balançar e foi aí que a
luz trepidante denunciou outra figura atrás do corpo, segurando o fio
que sustentava o moribundo. Era um homem alto e moreno, trajando um
terno preto, que ao encarar o jovem intruso... As mãos assassinas
largaram sua vítima e se mantiveram arqueadas preparadas para abater
a nova presa a sua frente. O lábio superior do criminoso exibia os
caninos esboçando um sorriso de pura crueldade que o fez ser atingido
por uma intensa descarga de pavor. Caio respirou fundo, mas o ar ficou
travado na garganta seca. Seus olhos apavorados não conseguiam
desviar do predador. Suas pernas trêmulas custaram-lhe a obedecer a
seu instinto de sobrevivência. Aqueles míseros segundos pareciam sem
fim para ele que já implorava uma forma de escapar dali. O homem de
olhar selvagem deu um passo em direção ao apavorado. Esse foi o
momento para que algo vindo de dentro do garoto desse forças para
reagir e num só lance atirou o lampião contra o maldito e fugiu em
disparada.
Caio
corria como um alucinado pelas ruas estreitas e escorregadias. O medo
e as imagens do crime o perseguiam. As janelas escurecidas dos prédios
o deixaram atormentado. Todas elas guardando aquela gente adormecida
que nem em sonhos poderiam imaginar o drama que ele estava passando...
Não ousava gritar. Tinha medo que o seu perseguidor o ouvisse e aí
sim poderia ser o seu fim. Correr e correr pra bem longe... Era tudo
que queria. Porém os lampiões espalhados na rua o aterrorizavam com
seus jogos de luzes e sombras. Sua imaginação fazia-o acreditar que
cada sombra distorcida pudesse ser a do assassino à espreita.
As
vitrines das lojas pareciam não só estar refletindo o seu rosto
encharcado de suor, mas também seus pensamentos. A cada relance, os
olhos de Caio se concentravam nos reflexos que faziam imagens emergir
sobrepostas, tomando a forma de um quadro. Colagens como o rosto
distorcido do estrangulado de perfil e de frente ao mesmo tempo com os
olhos saltando e os dentes serrilhados... Bem no centro desse quadro
que sua mente criava, podia distinguir a figura do assassino de lábios
exageradamente grossos com um sorriso canibal. Os globos oculares do
criminoso saltavam para fora da cavidade e sua face estava
tremendamente repuxada. As mãos em forma de garras seguravam um longo
fio da morte. No fundo dessa cena do crime estava o trem retratado tal
como um desenho de uma criança. Acima, no canto esquerdo, estava o
esboço feito por linhas trêmulas de sua mãe com a face deformada
por lágrimas e por fim, no canto inferior, estava o pedaço da tela
mais escabroso... Lá, uma cova era perfurada por uma lápide com o
nome Caio Zip em sangue borrado. Todo esse drama rabiscado por sua
imaginação aterrorizada o deixava mais confuso. A cada encruzilhada
não sabia para onde seguir... Como saber se estava na direção
certa? Como saber o que aconteceria se seguisse por ali ou por aqui...
Se seria melhor ou pior? Durante sua fuga desembestada, Caio acabou
esbarrando em alguém.
-
Ei! - reclamou o homem fardado – o que há com você, rapaz?
-
Seu guarda, tem um homem atrás de mim. Eu vi um homem morto.
-
Calma aí, mocinho, fale devagar. Do que você está falando?
-
Tem um homem querendo me matar. Ele matou um mendigo no vagão do trem
lá na estação.
-
Que história é essa? – disse o policial, segurando os ombros do
alarmado.
-
Eu vi, eu vi! Tem um homem morto dentro do vagão.
-
Mas como pode ser? A estação está fechada a essa hora. O que você
estava fazendo lá? Ei, rapaz, cadê seus pais? Onde você mora? – o
policial preocupado segurou o braço de Caio. – Diga logo!
-
Me larga! Seu guarda, eu estou falando a verdade. Vamos lá na estação
que eu mostro o corpo do mendigo.
-
Mendigo, é? Deixa disso, rapaz. Diga onde você mora, senão eu vou
é levá-lo pra delegacia, já, já.
-
Não! – Caio se soltou e fugiu do guarda.
-
Volte, garoto, volte já aqui! – gritou o guarda parado. - É pro
seu próprio bem.
Caio
continuou a correr por aquelas ruas desconhecidas até que, esgotado,
escondeu-se num beco escuro sem saída. Seu rosto estava vermelho e
custava a respirar. Detrás de uns latões se acomodou do jeito que pôde.
Apesar de tentar manter-se vigilante, seu corpo acabou obrigando-o a
dormir, fugindo assim, nem que fosse por um breve momento, daquele
pesadelo.
Aos primeiros chutes, Caio despertou.
-
Acorde, moleque! – gritava um policial, enquanto continuava a dar
chutes leves nas pernas do dorminhoco.
–
O quê! – Caio esfregava os olhos. - Ah não, outro guarda.
-
Anda logo. Não tenho o dia todo. Sai logo daqui ou senão coloco nas
grades.
-
Droga, tô morrendo de fome.
-
Ora, moleque, se é assim, então vá pro albergue que é seu lugar.
Anda!
-
Albergue? Onde?
-
É só dobrar a esquina. Sai logo daqui, antes que eu perca a paciência.
- Caio se levantou e se dirigiu à esquina.
Naquela hora da manhã, já havia pessoas andando pelas calçadas
assim como carruagens e carroças. Logo ele percebeu que todos que
passavam por ele o estranhavam, principalmente as mulheres usando chapéus
de abas largas e trajando vestidos longos com golas abotoadas com
broches. Definitivamente, seus trajes diferentes e sujos chamavam a
atenção. Todo encurvado, fechando ao máximo a camisa contra o
peito, tratou de acelerar o passo.
Assim
que atravessou a rua foi direto para um prédio onde havia uma fila de
pedintes. Ao entrar, andou até um balcão e pegou um dos casacos ali
amontoados. Apesar do agasalho ser de um tamanho maior que o seu
manequim, vestiu-o. Apressado, cruzou um corredor e foi seguindo o
cheiro de uma sopa que a essa altura lhe pareceu um verdadeiro manjar
dos deuses. Sentou-se um pouco afastado dos velhos reunidos na ponta
da mesa longa e foi fazendo sumir de uma só vez a comida. No último
gole, olhou para frente e se assustou. Lá na porta de entrada,
avistou o policial que havia esbarrado durante a correria da
madrugada. Com medo, escondeu o rosto por detrás da gola do casaco até
verificar que o guarda saíra dali. Mais aliviado, voltou a procurar
por mais um prato de sopa.
-
Está mesmo com fome, filho. – disse uma senhora de cabelos
grisalhos presos, segurando uma cesta de pães. – Aceita um pedaço?
Está fresquinho.
-
Quero, sim, obrigado! – respondeu Caio com um sorriso.
-
Nunca vi você por aqui. – disse a mulher, ajeitando os pequenos óculos
que teimavam em escorregar para a ponta do nariz. - Como se chama?
-
Meu nome é Caio Zip. E a senhora?
-
Sou madame Dupin. Sou eu que ajudo a cuidar desse abrigo junto com o
pastor Samuel... E você está sozinho? Você tem pais?
-
Bom, - disse Caio, desviando o olhar por um instante. – Eu, eu...
Estou por uns tempos viajando sozinho. Os meus pais não estão vivos.
-
Pobre menino. – disse a senhora, passando os dedos no rosto sujo de
Caio. – Onde você está morando?
-
Eu acabei de chegar aqui de madrugada e ainda não arranjei um lugar
pra ficar.
-
De madrugada! – espantou-se a senhora. – E o que ficou fazendo até
o amanhecer?
-
Eu estava na estação e... – por mais que tentasse, a indecisão de
Caio o impedia de contar à idosa atenciosa.
-
Vamos, filho, o que foi que aconteceu? Pode falar.
-
Eu vi um homem sendo estrangulado. Foi isso que aconteceu.
-
Verdade! E você viu a cara de quem o matou?
-
Direito, não. – a velha ficou por instantes a encarar o garoto.
-
Oh, bom Deus, como é que essas coisas acontecem – a senhora se
sentou ao lado de Caio. - Então é mesmo você quem o policial
procura.
-
Policial?
-
Vou ser franca com você, meu filho, esteve agora há pouco um oficial
procurando por um garoto que contou para ele sobre um assassinato.
Como ele achou que o garoto não batia bem da cabeça, pediu-me para
que assim que eu o visse o avisasse. – a velha sorriu e colocou a mão
nas costa do assustado - Mas sabe de uma coisa? Eu acho que se você
viu realmente um crime,
dever ir até a delegacia e dizer tudo que sabe.
-
Não, não vai dar – disse Caio agitado.
-
Por que, meu filho?
-
Não, não posso.
-
Mas por quê? – insistia madame Dupin. - Se você está com medo eu
posso ir com você.
-
Não, deixa pra lá. Eu estou sozinho e se bobear a polícia vai me
prender.
-
Tem certeza?
-
Tenho, tenho sim.
-
Acho que você está certo. Depois que você contasse tudo, a polícia,
vendo que você está só, iria mandar você pro orfanato... E eu acho
que você não ia gostar muito de lá.
-
Orfanato! – ficou Caio ofegante. – Não, de jeito nenhum.
-
Bem, Caio, já que você não quer... Você tem lugar pra ficar?
-
Não, eu já disse que eu não tenho.
-
Ah é, você já disse isso. Que cabeça a minha. Bem, na rua é que
você não pode ficar. Venha comigo, filho, vou te levar para a pensão
onde moro.
-
Pensão! – animou-se Caio, mas em seguida ficou preocupado. - Mas eu
não tenho dinheiro.
-
Não se preocupe. Você pode pagar trabalhando. Vamos? Sua cara está
me dizendo que precisa de um bom descanso e de um bom banho.
No
caminho, Caio e madame Dupin, que andava curvada, estavam passando por
um beco abandonado quando a senhora parou por uns instantes enquanto
Caio prosseguia. Quando o garoto se voltava para a senhora um homem
gritou.
-
Madame Dupin!
A
mulher, ajeitando a cintura da saia, rapidamente, virou-se para um
homem alto loiro que sorria para ela.
-
Bom dia, senhor Duarte. Como vai?
-
Vou bem, madame.
-
Um lindo dia, não.
-
Sim, madame, mas o que a senhora está fazendo aqui nesse beco?
-
Como o que estou fazendo? Estou levando meu amiguinho para a nossa
pensão.
-
Ah, mas uma cara nova. Prazer! - disse o homem, tirando o chapéu. –
Sou Jean Duarte.
-
Sou Caio Zip. – cumprimentou o garoto, levantando a mão.
-
Madame, a senhora não deveria passar por aqui. É muito perigoso.
-
Que nada! – respondeu a mulher, impaciente. - De dia não tem
problema algum e o senhor sabe que por aqui a gente corta um bom pedaço
do caminho...
-
Não é nada sensato uma senhora arriscar-se. Se a senhora me
permitir, irei com vocês.
-
Mas o senhor não está vindo de lá?
-
Sim, mas não tem problema. Eu só ia bater um pouco as pernas,
procurando um tema para fotografar depois. Vamos?
-
Já que o senhor insiste. - disse a senhora, olhando para Caio.
-
Insisto, senhora. Eu faço questão de deixá-los na porta.
Tim,
Tim, Tim. - tocava a senhora Dupin a pequena campainha do balcão da
pensão.
-
Já vai! Já vai! – resmungou uma senhora de cabelos brancos de
olhos escuros e com intensas rugas na testa. A mulher, andando com a
ajuda de uma bengala e segurando um enorme xale nas costas, foi
descendo as escadas atrás do balcão. – Que coisa, madame Dupin!
Tenha paciência. Eu não posso estar em todos os lugares ao mesmo
tempo, sabia?
-
Madame Blanche – disse a velha Dupin. – É sobre isso mesmo que
vim falar com a senhora. Trouxe esse rapaz aqui para ajudá-la nos
serviços.
-
Ah, não. – assustou-se a mulher apertando mais o xale contra o
peito. - Não me diga que é um dos seus mendigos.
-
Não, madame, esse rapaz não é um dos carentes do albergue.
-
Ah, é! – desconfiou a senhora, olhando de cima a baixo o garoto
escondido no enorme casaco. – Então, de onde veio esse mocinho,
hein? Não quero gente estranha em minha casa.
-
Madame, - interrompeu o homem que acompanhava madame Dupin. - qual é
o problema dele ficar aqui? A senhora mesmo admitiu há pouco que
precisa de alguém! Esse rapaz é forte e saudável. Ele pode muito
bem ajudar fazendo os serviços como lavar janelas, mandar recados, ir
às compras para a senhora... Tudo isso em troca de comida e de um
quarto.
-
Um quarto, não. Eu só tenho o depósito lá no sótão. E ele vai
ter que fazer também a faxina dos quartos.
-
Já está ótimo. – sorriu madame Dupin. – Ele aceita, não é?
-
É - confirmou Caio chateado. – Tá bom.
Uma
senhora alta, de cabelos acobreados, surgiu por detrás da idosa
inquilina.
-
Quem é ele? – indagou a estranha de voz forte, olhando fixamente
para Caio.
-
Ninguém, Madame Elpram – limitou-se madame Blanche, subindo as
escadas. - Apenas mais uma boca pra comer.
-
Marine, que bom que está aqui – disse madame Dupin à senhora alta.
– Será que você poderia me fazer um favor?
-
Sim, o que deseja?
-
Eu preciso voltar logo para o albergue. Poderia cuidar de Caio
enquanto isso?
-
Não tem problema – disse a mulher que colocou a mão pesada sobre o
ombro de Caio. - Por mim está tudo bem. É sempre bom ver uma cara
nova por aqui.
-
Obrigada, Marine - disse Dupin já se dirigindo à porta da rua. –
Volto assim que puder. Cuide bem dele. – a senhora virou-se para
Caio. – Fique aqui, meu filho, e não saia. Está bem?
-
Venha – disse Marine a Caio. – Vou lhe mostrar o lugar, depois...
– a senhora parou um instante e ficou a reparar em Caio. – Vamos
arranjar umas roupas pra você e... – ela começou a farejar algo no
ar. – Que tal um banho?
Foi
somente após um banho de banheira com água bem fria e mais quatro
horas, enfrentando a detalhada excursão da senhora Marine Elpram, que
Caio finalmente conseguiu ficar sozinho. Aproveitou que havia uma sala
vazia e foi descansar num sofá. Ficou ali pensativo, tentando
refletir sobre tudo que lhe havia acontecido, até o momento em que
seus olhos depararam-se com um jornal jogado ma mesinha em sua frente.
Caio o pegou e começou a folhear as páginas, avidamente, até se
fixar em uma.
-
Hum! Lendo a parte policial. – disse uma garota ruiva, um pouco mais
velha que Caio, parada atrás do sofá. A desconhecida, trajando uma
saia e paletó cinzas com um broche em forma de flor preso à gola
alta de uma blusa branca, tentou ler um artigo.
-
O quê! – disse Caio surpreso, fechando a página.
-
Ei, calma – disse a garota, erguendo as duas mãos. – Eu não
queria assustá-lo. Só estava curiosa. Do jeito que estava lendo, eu
sou capaz de apostar que você estava procurando alguma coisa muito
especial.
-
Eu só estava lendo. – disse Caio, largando o jornal. – Eu só
estava passando o tempo.
-
Que pena – desapontou-se a jovem. – Pensei que tinha encontrado,
finalmente, alguém pra conversar nesse lugar chato. Também pudera,
as pessoas daqui não são muito de ler e nem de conversar... Você
gosta de livros policiais?
Por acaso, você já leu as aventuras de Sherlock Holmes?
-
Sherlock! – alegrou-se Caio. – Eu o conheço bem.
-
Você gosta? Que
maravilha!
-
Eu acho ele muito legal.
-
Legal – estranhou a jovem. – É, não deixa de ser, já que ele é
um detetive, ele tem agir conforme a lei. Mas, deixando isso de lado, então,
eu não me enganei. Você gosta de ler o jornal procurando crimes não
resolvidos assim como eu, não é isso?
-
Não é bem isso. Na verdade, eu estava vendo se havia alguma coisa
sobre um homem morto na estação.
-
Na estação! – a
ruiva interessada logo se acomodou no sofá junto a Caio. – Quando
aconteceu?
-
Hoje de madrugada.
-
E você já queria encontrar a notícia no jornal?
Ah, que é isso. Se aconteceu de madrugada, o jornal só vai noticiar
amanhã lá pelas onze.
-
Pelas onze!
-
Claro. O jornal custa muito a chegar aqui em Montmartre.
-
Droga!
-
Mas... Como foi esse crime que você viu afinal?
-
Quem disse que eu vi o crime?
-
Só pode ser. Eu não vi a senhora Elpram comentar nada sobre um crime
e pode acreditar, se ela não contou então ninguém está sabendo de
nada. Ela é a maior “noticiadora” da região. Além do mais, do
jeito que você estava folheando esse jornal... Aí tem coisa. Você
tem algum envolvimento pessoal com o caso. E aí, o que você viu?
-
Eu vi um homem sendo estrangulado.
-
Estrangulado! – Mary ficou pensativa depois continuou. – Onde foi?
-
Foi lá na estação.
-
Sei, sei, mas qual estação?
-
Acho que era... Ah, sim estação do Norte.
-
Hum, essa é uma das maiores estações daqui de Paris. E o que você
viu de verdade?
-
Eu vi um mendigo sendo estrangulado por um homem.
-
Você viu a cara do criminoso?
-
Vi e não vi. Havia pouca luz, sabe. Ele era alto, moreno... Vestia um
terno preto... Foi tudo muito rápido. E eu... Eu não esperava... Me
lembro bem do olhar... Era muito... Muito frio, mas ao mesmo tempo
parecia tão assustador.
-
Bem, não é de se estranhar. Certamente, o homem não esperava ser
visto por alguém. - a
garota riu, mas em seguida ficou intrigada. – Aliás, o que você
estava fazendo na estação a essa hora?
-
Eu? Eu estava andando perto dos trilhos até que vi a estação. Eu
acabei de chegar aqui na cidade.
-
Sozinho?
-
É! Não tem nada demais. - tentou Caio desconversar. A curiosa, vendo
que Caio tinha ficado sem jeito, mudou de assunto.
-
E o que mais? Como era o assassino? Ele era grandalhão? Tinha alguma
cicatriz...
-
Não, não, ele era bem normal... Quero dizer... – corrigiu Caio ao
ver a jovem segurando o riso. – Que eu me lembre, ele não tinha
nada que me chamasse a atenção.
-
A não ser que era um homem com as mãos ocupadas estrangulando alguém.
- Caio, sem graça, manteve-se quieto. A ruiva aproveitou para
prosseguir com o interrogatório. - E o que mais aconteceu?
-
Ah, eu fiquei ali parado, mas depois que vi o homem avançar, querendo
me pegar, joguei o lampião na cara dele e me mandei.
-
E tem certeza que o mendigo morreu?
-
Ele morreu, sim, e na minha frente. O homem de preto estava
estrangulando com um fio até que a língua do mendigo ficou toda de
fora e o rosto estava branco... A boca dele estava roxa que nem...
Que nem aquele pano ali - disse o aflito, apontando para uma
toalha de mesa bordada em cima de uma mesinha alta com uma bíblia
aberta num apoiador de madeira. – O olhar... O olhar dele me
implorava por ajuda e eu não pude fazer nada. Nunca pensei que
pudesse me sentir tão inútil. Mas o que eu podia fazer? Droga!
-
E você já falou com a polícia?
-
Não, não...
-
Como não? – repreendeu a jovem. – Você é uma testemunha ocular
e...
-
Ora, por quê? – chateou-se o garoto se levantando do sofá. - Eu...
Eu vivo sozinho... Acabei de chegar e... Não conheço ninguém. E a
polícia vai me levar pra um orfanato. Eu não vou me envolver com a
polícia.
-
Sim, sim, compreendo. – a ruiva ficou pensativa por um instante e
depois prosseguiu. – Bom, vamos esperar. Se tudo isso aconteceu de
madrugada na estação deve sair alguma coisa nos jornais amanhã.
-
Mas aconteceu. É tudo verdade!
-
Eu não duvido de você. Do jeito que você estava olhando o jornal...
Do jeito que você contou como se estivesse vendo tudo novamente... Dá
pra sentir que você não inventou e nem exagerou... Você não parece
do tipo que conta coisas só pra impressionar uma garota. - brincou a
garota. - Pode deixar! Amanhã deve sair alguma notícia, nem que seja
uma notinha. – ela deu um sorriso com o olhar que deixou Caio se
sentindo mais confiante. Os dois já estavam voltando a conversar,
quando a senhora Blanche apareceu diante deles.
-
Ah, aí está você, mocinho. – disse a senhora de forma áspera,
fazendo com que Caio saltasse do sofá. – Trouxe aqui uma lista das
coisas que eu quero que você faça aqui na pensão. Espero que não
seja do tipo molenga. Já vou logo avisando que comigo não dou nada
certo gente assim.
Caio
pegou a lista e ficou abismado com a quantidade de tarefas.
-
Vamos, moço, já deixei você muito tempo descansando. – disse a
dona, empurrando o jovem com a bengala. - Ao trabalho.
-
Ei, espera. – pediu a ruiva ao rapaz. – Você não me disse seu
nome.
-
É Caio Zip. – respondeu Caio já fora da sala. - E o seu?
-
É Mary. – apressou-se a garota. - Mary Miller.
-
Mocinho – disse a senhoria na frente de um balcão. – Fique aqui e
me espere que volto já. – a mulher subiu as escadas.
Enquanto
esperava, Caio ficou próximo à janela, observando o movimento da
rua. Num dado momento, surgiu um homem de cabelos castanhos curtos e
despenteados com um bigode, trajando um terno e colete quadriculado. O
homem, carregando uma mala, entrou na pensão, dando um aceno a uma
senhorita que saía do recinto. Caio ficou a reparar nos pés daquela
figura ímpar de cabelos
desgrenhados que calçava sapatos de
couro sem meias e tinha a calça do terno amassada.
Mais peculiar era seu comportamento, pois olhava para tudo ao seu
redor e mexia nos objetos com uma espontânea curiosidade infantil. A
impressão que tinha era de estar diante de alguém visitando o local
pela primeira vez. Não. Era mais do que isso. A sensação era de que
o homem não só não fazia parte daquele lugar, mas sim como se
estivesse vagando fora do seu mundo, fora do seu tempo.
-
Essa mala é sua, senhor?
– indagou madame Elpram, descendo as escadas.
-
Sim, sim – confirmou o desconhecido, retornando para perto da mala.
– Eu gostaria de alugar um quarto.
-
Pois não – Marine ficou a olhar para a mala gasta com uma pequena
corda amarrada na alça. – E quanto tempo o senhor pretende ficar?
-
Acho que uma semana é o meu limite.
-
São 15 francos com café e almoço, adiantados.
-
Isso basta? – o estranho foi tirando do bolso algumas notas
embrulhadas e foi espalhando-as por cima do balcão.
-
Marcos alemães!
-
Eu ainda não tive tempo de trocar o dinheiro.
-
Engraçado – prosseguiu a abelhuda marine. – o senhor não parece
alemão.
-
Eu sou alemão, ou melhor, sou suíço.
-
Como? – ficou a ajudante intrigada.
-
É melhor explicar: Nasci em Ulm na Alemanha, mas naturalizei-me suíço.
-
Então, faz pouco tempo que se naturalizou, não é?
-
Pouco tempo, muito tempo. É Relativo.
-------------------------------------------------------------------------------
Veja
outro trecho deste livro onde
Caio Zip está no atelier
de Picasso e durante uma conversa
bem animada com Einstein, Agatha, Picasso
e amigos do pintor acaba descobrindo como a Teoria da Relatividade, o Cubismo e o
mistério estão entrelaçados.


Para
Introdução