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ANÍBAL
E ARQUIMEDES
Direitos
autorais Regina Gonçalves



TRECHO
DO LIVRO CAPÍTULO 25:
A
BATALHA DE CANAS
A manhã quente armava-se para a
grande batalha. Os
combatentes veteranos comiam o último pedaço
de pão molhado de uma só vez, mas a ração custava a descer
pela garganta dos novatos. A bebida encarregava-se de inflamar a
coragem. Naquele momento não havia liberdade para que quaisquer
pensamentos negativos pudessem fluir.
Descendo
o acampamento, Aníbal enviava seu exército para o campo da
grande batalha. Cruzava o rio com o corpo principal protegido
pelos arremessadores de fundas e a infantaria africana. Era a hora
tão esperada e não havia espaço para demora e, muito menos,
para indisciplina.
Os
íberos e celtiberos postavam-se em silêncio, mas os gauleses da
Gália Cisalpina, marcados por uma tinta azul escuro nas faces,
agachavam-se e batiam violentamente as mãos espalmadas sobre as
coxas. O ritmo das batidas foi aumentando e no auge da selvagem
provocação, deixavam de bater nas pernas e com os punhos
cerrados batiam as espadas contra os escudos. Gritos de guerra
ecoavam mesclados com intensos grunhidos. Rangiam os dentes,
cuspiam, praguejavam e com olhos cheios de ódio devoravam cada um
daqueles romanos. Os númidas, por sua vez, beijavam o talismã
pendurado no pescoço e os celtiberos engrossavam as faixas negras
sobre os olhos.
As
gotas de tensão escorriam pelos rostos dos lutadores. Os corações
agitavam-se enlouquecidos para espantar a morte de seus
pensamentos. A expectativa fazia os dedos tornarem-se inquietos
sobre o cabo da arma. Os olhos fixavam nas fileiras romanas
intermináveis.
Naquela
formação disciplinada, o terrível silêncio era quebrado apenas
pelo forte vento que atingia em cheio os olhos dos soldados
italianos.
O
calor se fazia presente nas mãos e rostos suados dos combatentes
de ambos os exércitos. Não se sabe ao certo quanto tempo se
passou entre a expectativa e o soar das trombetas incitando a
marcha do grande exército. Na hora do perigo à vista os homens
encarceravam seus temores e se lançavam a devorar toda a energia
emanada pelo espírito guerreiro.
Os
passos fortes dos soldados cobertos por uniformes vermelhos
marcavam a terra num compasso trovejante. A legião estava
dividida em coortes, e cada coorte, em três manípulos: primeiro
os hastati, em segundo
os príncipes e em
terceiro os triarii. Os hastati formavam grupos com doze fileiras, de dez homens cada, e
entre os grupos era deixado um espaço para os príncipes avançarem no devido tempo. Para Caio, que observava
espantado aquele oceano vermelho, a formação da legião parecia
um verdadeiro tabuleiro de xadrez, onde os soldados agrupados eram
os quadrados negros e os quadrados brancos eram os espaços
vazios. Bandeiras
coloridas demarcavam cada grupo e estandartes especiais orientavam
os soldados e cavaleiros sobre o rumo que deveriam seguir.
A
formação cartaginesa impressionava pela variedade de raças e,
especialmente, pela estatura dos gauleses. Eles chamavam a atenção
também por conservarem o visual descuidado e sujo, com boa parte
deles usando bigodes longos e cabelos compridos e trançados, ao
contrário dos romanos, limpos, de cabelos curtos e bem barbeados.
Grupos
de bárbaros assemelhavam-se à figura de uma legião, por estarem
empunhando o equipamento militar saqueado dos inimigos mortos em
Trasinemo. A infantaria e a cavalaria pesada vestiam capacetes que
deixava somente a boca à vista, couraças, malhas de ferro e lança.
Os íberos estavam armados com as falcatas, cujas lâminas afiadas
curvavam-se para frente em direção ao cabo da própria arma. Os
celtiberos conservavam suas espadas com cabos negros com desenhos
em espirais. Os númidas sustentavam dardos, uma espada e um
pequeno escudo redondo. A infantaria ligeira armada com seus
montanheses iberos com pequenos escudos e gládios junto aos lígures
e boiénios que manejavam pesadas espadas ou machados. A
infantaria pesada também era composta na grande maioria por líbios.
Esses guerreiros vindos da África estavam equipados como hoplitas
gregos, com capacetes, lanças, espadas e escudos redondos, e seus
corpos estavam protegidos por grevas e couraças.
As
ordens de Aníbal aos soldados vieram por intermédio dos chefes
das tribos e dos oficiais cartagineses. Aníbal chefiava a linha
de frente e mantinha em sua mente todos os números sobre os exércitos.
As
forças combinadas dos dois cônsules eram estimadas em 86.000
homens, sendo 6.000 na cavalaria. O exército cartaginês tinha
apenas 56.000 homens, composta de cartagineses, númidas, ibéricos,
celtiberos e gauleses, portanto
30.000 a
menos que os romanos. As forças de Aníbal estavam em desvantagem
numérica, porém sua cavalaria era maior, contava com 10.000
cavaleiros, dentre os quais 6.000 temíveis númidas.
Caio
e Juba estavam juntos aos arremessadores de funda à frente da
infantaria ligeira na primeira linha. Em seguida os gauleses e íberos
ficavam um pouco avançados em relação à infantaria pesada,
onde se encontravam Brigit, Vanix e Eleonora. As cavalarias
armavam-se nos flancos formando asas abertas. O flanco esquerdo
era liderado pelo comandante Asdrúbal e à direita estava
Maharbal com a cavalaria leve.
Novamente,
Aníbal havia improvisado, deixando o cônsul do dia confuso,
custando a entender a razão pela qual a cavalaria cartaginesa
estava disposta de forma desequilibrada com a força maior no
flanco esquerdo composta da cavalaria pesada ibera e celtibera e
os númidas sozinhos no flanco direito.
A
cavalaria romana tinha sido dividida com a cavalaria romana no
flanco direito do exército romano e com os aliados italianos no
flanco esquerdo. No ponto de vista do cônsul inexperiente, o
comandante púnico parecia ter pouco espaço para manobrar e
nenhuma possibilidade de retirada, pois a cavalaria pesada estava
com o rio na retaguarda. Varro sorria ao constatar a superioridade
numérica da infantaria.
(...)
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